meio-fio

meio-fio. (sonho – 08/03/2018)

Sonhei que eu tava dirigindo uma cadeira-de-rodas. Não por que gostava (como quando fantasiava quando criança), mas por que precisava. Estava numa rua de pedras, de um chão irregular e esburacado. Então tentei subir na calçada pra poder andar melhor, “andar nos trilhos”, mas eu empurrava e empurrava e as rodas batiam no meio-fio. Não acontecia nada. Os meus braços ja doíam tanto quqndo  olhei em volta e não vi ninguém pra pedir ajuda. Eu tava sozinho(?). De qualquer forma eu não conseguia pedir por ajuda. Eu tava sozinho. Eu queria ta sozinho. Esquisito isso de querer fazer tudo sozinho… Mas fazer o quê se tem que fazer? Frustrado na minha impotência.

(sonho – 09/03/2018)

G. se mudou para SP esse mês. Eu fiquei feliz por saber que as coisas estão se movimentando para ele. Nada é certo, depois disso nada se sabe. Mas eu acho que já é grande coisa. Dizem que por lá as coisas funcionam mais do que aqui na província. Essa noite sonhei com ele:

G. desentupindo a pia do seu apartamento novo em SP.

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Queda-livre

ismael e alexander.jpg
Alexander no quarto de Ismael.

Hoje na Sala Redenção tava sendo exibido um filme do Bergman – “Fanny e Alexander”. Fui sozinho. Ainda bem, por que chorei tanto por dentro que fiquei com dor de cabeça. Dor de cabeça e nos ombros. Uma dor que subia pela nuca e se enfiava atrás dos meus olhos e nas minhas têmporas. Mas não foi por tristeza e nem por medo. Foi por algo que não se dizer. Como ontem, quando caminhei pela rua e depois subi no telhado do prédio e vi toda aquela extensão magnífica de céu de fim de tarde. Acho que é um sentimento estranho de liberdade quando a gente não sabe mais o que é vida e o que é morte, o que é verdade e o que é mentira, o que é sonho e o que é real, o que é névoa e o que é nuvem. Teatro.

Tu já viu um balão estourando? Aquela frágil bola de ar se rasgando tão rapidamente que é impossível saber onde é que foi que ela furou? É como um sopro breve que passa pelo corpo e que, ao invés de acariciar, assusta. Igual quando a gente sonha que tá caindo e acorda de sobressalto. E a bola se dissipa, se perde até que não reste mais nada se não uns pedaços colorido estilhaçados sobre o chão. O ar retoma sua forma vazia de absolutamente nada, se torna livre novamente e agora não se sabe mais onde está ou para onde vai… e ao mesmo tempo está ali, diante dos nossos olhos, dentro dos nossos pulmões. Dentro e fora. Então essa explosão se parece mais com uma tempestade, assustadora na beleza daqueles ventos furiosos, daquelas luzes loucas, daquele show violento que nos assusta no princípio, mas que no fim, quando acaba por nos molhar, é doce. A água é doce quando escorre devagar pela pele até tocar o chão.

Penso que renascer seja assim – e acho que nascer também: depois do susto da ruptura do balão-mundo, uma noite chorosa e serena, sem forma, igualmente inesperada como sua explosão. E aí, quando se está assim, sem rumo, solto como o ar no mundo, pleno de incertezas: eis a liberdade. O corpo está livre. Livre por que solitário e iludido.

5 de abril de 2018

Ontem eu vi um casal se beijando e sabe que me deu uma vontade súbita de beijar também? Ele mergulhava seus dedos nos cabelos pretos e profundos do outro cara e ele gostava. Do outro lado do oceano um avião se precipita para baixo e amaça cair. Na minha frente um espelho sujo e envelhecido que achei no lixo e levei para casa.

Fui para a zona sul fazer visita. Subi o morro e veio aquele cheiro de plantinha seca que sempre me faz lembrar do B. Engraçado como é forte a lembrança desse cheiro – acho que é por que é uma das poucas que restaram pra contar história. Fiquei pensando longe, olhando por cima do morro a cidade e acabei entrando numa rua sem-saída. Tinha um negro sem camisa cavando um buraco no chão com uma pá. O peito dele tava suado e eu senti sede – em casa não tinha água e logo ali na minha frente uma cachoeira quente e nua.

Voltei para o meu caminho, parei na frente da casa e bati palmas duas ou três vezes, mas não tinha ninguém. Complexo de abandono no portão. Pelo menos parou de chover e agora faz sol. Senti uma torção na barriga – deve ser por que mais cedo fiquei lambendo o reflexo da minha cara naquele espelho sujo.  Subi mais alto no morro para ver o rio lá de cima e fiquei não sei quanto tempo nisso. Me lembrei daquela música do Tom Zé e comecei a cantarolar: “na vida quem perde o telhado, em troca recebe as estrelas”. E pensei sobre as pessoas que não têm mais nada a perder. O que é que elas ganham? Talvez tudo. Liberdade.

Insolúvel (para B., quatro anos depois)

insolúvel, s-d
“insolúvel”, projeção – s/d
Ficamos presos na lama
esperando o que não
o que não volta nunca.

Debaixo daquelas nossas
carapaças
golpeadas tantas vezes
havia algo além de teimosia
havia a sujeira de um lodo
que dividia dois corpos 
insolúveis
heterogêneos.

Caminhos opostos
espaços
espadas 
cruzadas
barulhos
vidros
quebrados
no chão 
do banheiro
choro 
lento
profundo.

E quem diria que tudo isso
fosse "amor"?
e que eu fosse teu irmão?
e que tu fosse meu espelho?
e que tu fosse meu 
cheiro cheio
de mar
de sol
de coisas que não se deixam quebrar
por medo de não se ter mais nada 
pelo que chorar?
Naquelas estruturas vazias
construídas no deserto
nós não podíamos fazer barulho sequer.

Como queimam
duas peles que se tocam na intensidade 
de um clarão cego
de nada
nada antes visto
e que irrompe por aquelas frestas 
das paredes de madeira sem deixar rastros.

Aqueles corpos continuam por aí
gritando
ardendo
separadamente
como antes
como nunca antes 
daquele toque
e agora mais perto do que nunca
tão distantes
inseparáveis
insolúveis.

(Jan, 2014)

 

A vida é um caminho solitário

desamparo, 2017
desamparo, 2017 (colagem)

A vida é um caminho solitário, como um sonho vazio ou uma praia deserta de dunas que montam-se e desmontam-se, de tempos em tempos, com os movimentos dos ventos. E não importa o que nem quem esteja ali parado pois, de grão em grão, a paisagem se modifica e tudo é coberto pela areia depositada lentamente sobre a superfície comprida dos dias mornos, enterrando ora parcial ora completamente todas as formas vivas ou não. Vento solitário, rosado, salgado. Areia pesada, tempo passado. Buraco, rasgo, vácuo. Eu observo enquanto a vida se consome toda sob selo do tempo, como uma doença que se espalha pelo corpo sem que se perceba pois está escondida embaixo da carne: um vírus que se reproduz e infesta célula por célula, brutal e silenciosamente, até que tudo esteja marcado pela sua persistência, até que tudo seja consumido pelos seus sucessivos ataques. Toda a vida se desfaz, sem paz, sem trégua, sob o signo e o trânsito de uma morte suave.

E na praia eu vejo aquelas crianças balançando os seus membros moles, braços e pernas pendurados naqueles corpos tenros e penso que sorte a ingenuidade e a incompreensão dessas criaturas para as quais o passado e o futuro ainda não existem e qualquer sumiço é justificado por um pensamento mágico que somente elas e os loucos possuem. Penso que a essas primeiras o amanhã não importa e por isso a solidão pesa menos dentro de suas cabeças bolotudas, desproporcionais e horrendas. E me pergunto ainda se a elas só é possível o estar e o não estar, sem meio-termo – o existir e o não existir… talvez ainda não sejam questões que as tomam como tomam a mim e a quem sabe que o fim é inevitável. A verdade é que tenho poucas lembranças da minha própria infância, e por isso falo tantas besteiras. É como se ela também houvesse sido soterrada por essas areias: uma infância enterrada e esquecida para sempre, perdida numa vastidão de horizontes e que agora não passa de uma vaga lembrança serena e sem brilho, na qual nada pode repousar se não a incerteza e o mistério tolo dessa vida.

Então só posso imaginar que talvez tudo fosse assim mais simples naquele tempo, que tudo fosse menos assustador por que essa marca que nos acompanha não era ainda clara o suficiente para fazer temer o coração. Não… pensando bem, lembro-me daquela inquietação que me fazia perder o sono e chorar no meio da noite, quando eu tinha pouco menos de dez anos: aquele medo do desconhecido que se segue depois que fechamos os olhos quando dormimos em sono profundo ou depois da morte e que agora não me assombra mais e se transforma no medo pelo que há pela e na vida. E depois disto, não há mais nada com o que se preocupar.

Eu estava sentado na areia batida e úmida da manhã, escondido entre uns arbustos secos de ervas cegas que cresciam já no final da faixa da praia próxima das pedras, observando aquela paisagem, aquela passagem repentina, aquela correria desacompanhada e descompassada e pensando: a vida é um caminho solitário…

(Praia do Siriú, 23 de fevereiro de 2018)

Corrida, silêncio

2018-02-12 04.45.25 1
auto-retrato, jan 2018
Eu corro para ti
para o teu sexo
aquedutos de gozo
prazer displicente
que se foda a disciplina
aqueles ensinamentos quadrados
aqueles círculos de
olhos fechados 
no meio da multidão.

Eu estou despido
o meu sexo está despido
o meu desejo está despido
e o meu corpo está marcado
minhas manchas estão à mostra
ninguém me vê
vou embora.

As vezes eu acho que sou vulgar demais
que minha nudez é nudez demais
que minha carne é exposta demais
mas o que pode ser mais vulgar do que a vida?
A vida é um estupro de um animal cego
que manca em direção à saída
mas cai de lado antes de chegar ao fim
e incrivelmente
não chora
espera, paciente
silente
ferido.

Teu fluído flui por dentro de mim
e afora
e agora cessa
ganha corpo e tempo
e vai embora
vazio
sem dizer adeus.

Hoje vou te buscar

Te arruma que
hoje vou te buscar. 
Peito abstrato
minha cabeça quer descansar
não, não quer!
quer só encostar nesse peito quente
travesseiro de estrelas
que quando menos se espera
não está mais ali
tremeluzente lembrança da morte
no acaso.
Ainda falta tempo para essa criança nascer.
E se não nascer?  
Vai nascer!
Cheguei
no caminho do meio
ponto comum, inflexão.
Corpos confundidos com cordas e ganchos
Te agarra em mim
que hoje vou te buscar.