“Que o Deus venha” e Fiesta Literária para Clarice

Sou inquieta, áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto eu continuo inquieta, é porque eu preciso que o Deus venha.  Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive e a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas eu sei que vou ter paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida. (Clarice Lispector, “Água viva”, 1998, p.51)

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Anda a mulher Clarice fazendo 98 anos de existência.

Entre o mistério da vida sensível e o desejo indizível. Liberdade. Anda a mulher Clarice fazendo 98 anos de existência. Eterna mais do que nas palavras – eterna bem perto do coração selvagem. É impossível falar de sua morte se Clarice nos atravessa a vida e pulsa num chamado íntimo, silencioso e indomesticável. Para o delicado da vida. Um chamado para reunirmo-nos, por dentro, num sarau bacante. Buscando ser antes. Um sarau musicado clariceano gestante. Nascermos de novo, depois do antes. Renascer, ser de novo.

(Gracias ao David Lopes pela delicadeza, pela colaboração com parte do texto)

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[Registro de ação nas dunas do Siriú – nov, 2018].

Esse ano tem sido muito rico porque cada vez mais tenho ensaiado descobertas e aprendizados sobre o corpo, sobre o meu próprio corpo. Depois de tê-lo quase perdido em tempos de ameaças brutais a minha vida, começo finalmente a revelar narrativas de um corpo que é atravessado e produzido pela arte. E que agora se reinventa na intenção de ser a própria plataforma de criação de arte. Arte do corpo. A escrita me persegue, ou melhor, eu a persigo há muito tempo, mas o meu corpo, o meu corpo é a própria vida, o próprio meio pelo qual tudo isso é possível. Então se trata de uma escrita do/no corpo. Corpo esse que é o supra-instrumento essencial necessário para toda e qualquer produção de trabalho. E é por isso que, considerando os limites impostos pelo capital na alienação e do estranhamento do ser humano frente a natureza, a si mesmo e ao outro, valorizar o corpo é um ato de afirmação da própria existência, da potência da própria vida. Um ato que não se dá sobre o corpo individual, mas em relação ao gênero humano. E aqui é preciso ser breve para poder dizer que isso só tem se feito possível a partir dos encontros com dois grandes mestres artistas, mas acima de tudo, grandes amigos, os quais me ensinam muito sobre a vida, a arte, o afeto, a história – a minha própria história – e a singularidade dos nossos encontros. Ao João de Ricardo agradeço imensamente a oportunidade de aprender essa alquimia mesmo antes das oficinas dos Processos Híbridos de Criação e mais ainda agora, no cotidiano de laboratório no Cérebro. Ao Bruno Barreto pela sensibilidade dos registros de atos transformados pra sempre em memórias – sabemos bem que elas são os nossos motores do presente e do futuro. Beijinhos de carinho e admiração.

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Anjo louco, solto (let’s play that!)

 

Quando eu nasci
Um anjo louco
Um anjo solto
Um anjo torto, muito
Veio ler a minha mão

Não era um anjo barroco
Era um anjo muito solto, solto, solto
Doido, doido
Com asas de avião

E eis que o anjo me disse
Apertando a minha mão
Entre o sorriso de dente
Vá, bicho, desafinar o coro dos contentes

Let’s play that

(Jards Macalé – Let’s Play That)

 

Registo autofotográfico n. 1 de 2008

Essa foi a primeira foto que eu fiz de mim mesmo. Dez anos atrás, 2008. Eu tava de costas pro espelho, sempre estive. Acho que foi só quando eu comecei a descobrir os meus próprios olhos, para além dos olhos das galinhas do meu vô, que eu pude, finalmente, me olhar. A partir daí eu descobri um tanto de outros olhos. Olhos cruéis, primeiro. Eu me chamava, até então, Gabriel e queria capturar um monte de coisas bonitas e tristes. Ganhei uma máquina fotográfica. Aí meu olho virou pra dentro, depois pra fora e através. Ficou nessas, louco, descobrindo um monte de coisas. Um monte dessas coisas que eu tô tentando te contar. Aos poucos. Acharam tantas outras coisas que um ficou virado pra dentro e o outro pra fora. Até hoje. Foi assim que eu comecei a entender que eu não me chamava mais daquele nome Gabriel, era outro. Uma metade ficção e a outra. A outra eu não sei. Tudo isso pra poder ver contraditórios de uma coisa só. Tudo por que estar assim é quase como o sentimento de subir o mais alto que se pode, num prédio ou numa montanha, e ver a terra se perder no céu ou imaginar o infinito logo acima das nossas cabeças. Ou então, sentir o arrepio nos ossos ao olhar para baixo, sem ver o fundo, ou vê-lo distante e rápido. A gente tá mesmo bem no alto, mas tudo é tão rápido.

“Poema a la Clase Media” – Mario Benedetti

Clase media
medio rica
medio culta
entre lo que cree ser y lo que es
media una distancia medio grande

Desde el medio
mira medio mal
a los negritos
a los ricos
a los sabios
a los locos
a los pobres

Si escucha a un Hitler
medio le gusta
y si habla un Che
medio también

En el medio de la nada
medio duda
como todo le atrae
(a medias)
analiza hasta la mitad
todos los hechos
y (medio confundida)
sale a la calle con media cacerola
entonces medio llega a importar
a los que mandan
(medio en las sombras)
a veces, sólo a veces, se da cuenta
(medio tarde)
de que la usaron de peón
en un ajedrez que no comprende
y que nunca la convierte en Reina

Así, medio rabiosa
se lamenta
(a medias)
de ser el medio del que comen otros
a quienes no alcanza
a entender
ni medio

Mario Benedetti

Manifesto: Ainda nos resta um pedaço de céu vermelho para voar

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Kuzma Petrov Vodkin – “Fantasia”, 1925
Camaradas,
eu espero, do fundo do meu coração, ver a todos nós, que nos dizemos anti-fascistas, lado a lado nas ruas, nas “trincheiras”, nas barricas. Eu espero que nos organizemos coletivamente, que estudemos juntos, que nos apoiemos, que dialoguemos e que gritemos cada vez mais alto. Eu espero que rompamos com o isolacionismo pequeno-burguês que nos prostra na segurança de nossas casas. E que acabemos com as críticas rasas e injustas aos companheiros mais ou menos radicalizados. Eu espero que possamos olhar para o passado e dele tomar os erros e as vitórias como aprendizados para projetar um novo futuro. Eu espero que nos juntemos às bases, que combatamos o conservadorismo, o peleguismo e o fascismo dentro de nós mesmo e junto aos nossos companheiros.
Eu espero que levantemos nossas bandeiras contra a barbárie do capital – esteja ele usando qualquer máscara (progressista reformista neo-liberal nazista fascista…). E eu espero que tenhamos garra para lutar contra o fascismo que nos mata e também contra a burocracia sindical que nos empaca a vida. Eu espero que levantemos a nossa bunda mole das cadeiras e que vamos à luta nas ruas, nos locais de trabalho, moradia e estudo! Pois só a luta muda! Só com muita luta e com muito diálogo é que incindimos sobre a consciência de todos nós trabalhadores negros brancos mulheres homens LGBTs indígenas explorados-oprimidos…
E mesmo que tu acredite na farsa eleitoral burguesa, eu te pergunto: te basta apertar meia dúzia de botões para manter a tua consciência limpa? Isso nos basta? Isso nos bastou alguma vez na história da humanidade? Ou as maiores conquistas dos trabalhadores não foram feitas nas ruas através de muito sangue vermelho derramado e muita luta à punhos de ferro? O Estado burguês só tem nos feito concessões quando lhe convém. Então não é chegada a hora de demonstrarmos a nossa força (que tanto lhe serve para produzir sua riqueza) como resistência, como força força força livre? Como força de mudança real? Como força radical?
Vota, camarada, faz a tua parte, livra a tua consciência, mas não para por aí! Luta! Luta pela consciência coletiva! Luta pela consciência de classe! Luta pelos teus companheiros que tem a voz silenciada diariamente pelo capital, pelo fascismo e também pelo “trilili” de uma urna de cabine individual. Pois nossos sonhos não cabem nela e nem em nós mesmos! Pois nossa luta não para por aí!
Lembremos das nossas conquistas e das conquistas de nossos companheiros que morreram e seguem morrendo para nos garantir ainda o mínimo de direitos. Para garantir a resistência(!). E façamos jus às suas-nossas lutas: também lutemos!
Não é chegada a hora de tomar posição entre o socialismo e a barbárie para além da escolha de nossos senhores? A barbárie não começou ontem, apenas segue se intensificando cada vez mais. Nossos companheiros a vivem cotidianamente – não só na exploração contínua do capital, mas no avanço do reações diretas violentas reacionárias fascistas. Estamos morrendo, companheiro! E isso não é o bastante para que percebamos que nossas táticas enquanto esquerda (institucional e “radical”) têm se mostrado insuficientes?
Diante do socialismo e da barbárie, nos resta escolher… NÃO! Não nos resta escolher mais nada pois já não há mais tempo! É socialismo ou barbárie! E o socialismo é o único caminho que podemos buscar! O caminho que se trilha através da luta ativa, da luta nas ruas, da luta ombro a ombro aos nossos companheiros e companheiras, da ação direta e combativa. O caminho que nos aponta o rumo à liberdade e à emancipação!
Então, transformemos a nossa indignação, a nossa frustração, o nosso desespero, o nosso ódio (ou nosso amor) em luta! Luta! Militância organizada! Ação radicalizada!
Eu te vejo nas ruas, camarada, pois ainda nos resta um pedaço de céu vermelho para voar!
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(parafraseando o grande companheiro Pedro Lemebel)

meio-fio

meio-fio. (sonho – 08/03/2018)

Sonhei que eu tava dirigindo uma cadeira-de-rodas. Não por que gostava (como quando fantasiava quando criança), mas por que precisava. Estava numa rua de pedras, de um chão irregular e esburacado. Então tentei subir na calçada pra poder andar melhor, “andar nos trilhos”, mas eu empurrava e empurrava e as rodas batiam no meio-fio. Não acontecia nada. Os meus braços ja doíam tanto quqndo  olhei em volta e não vi ninguém pra pedir ajuda. Eu tava sozinho(?). De qualquer forma eu não conseguia pedir por ajuda. Eu tava sozinho. Eu queria ta sozinho. Esquisito isso de querer fazer tudo sozinho… Mas fazer o quê se tem que fazer? Frustrado na minha impotência.

(sonho – 09/03/2018)

G. se mudou para SP esse mês. Eu fiquei feliz por saber que as coisas estão se movimentando para ele. Nada é certo, depois disso nada se sabe. Mas eu acho que já é grande coisa. Dizem que por lá as coisas funcionam mais do que aqui na província. Essa noite sonhei com ele:

G. desentupindo a pia do seu apartamento novo em SP.